domingo, 17 de agosto de 2008

Dica de Leitura: Tristan Corbière


Tristan Corbière, foi um poeta simbolista francês (1845-1875). Mestre no estilo coloquial irônico, foi um desajustado à sociedade, costumava vestir-se com roupas de marinheiro, fumar cachimbo e pregar peças na vizinhança. Amante do mar, viveu boa parte de sua vida na costa britânica. Além de poeta era também pintor. Não foi reconhecido em vida; publicou um único livro, "Os Amores Amarelos" (1873). Após sua morte aos 29 anos por tuberculose, seu trabalho foi resgatado na coletânea “Os Poetas Malditos”, organizada por Paul Verlaine em 1884. Mais tarde foi reconhecido por críticos e poetas importantes como Edmund Wilson e Ezra Pound. Seguem, abaixo, um texto de Paul Verlaine sobre o poeta, publicado em sua antologia, e três poemas de Corbière com suas devidas traduções:



Tristan Corbière:“Seu verso vive, ri, chora um pouco, zomba do mundo e se torna gracioso. Ademais, é amargo e salgado como seu amado oceano. Não é acalentador, como as vezes ocorre a esse truculento amigo, mas, como ele, reflete os raios do sol, a lua, e as estrelas na florescência de ondas enfurecidas. Fez-se parisiense, mas sem o sujo espírito mesquinho. Ataques de tosse, vomito, ironia feroz e feliz, bílis e febre exasperadas em gênio, e em gracioso jubilo.
(Paul Varleine)





BONNE FORTUNE ET FORTUNE

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,
Pour la passante qui, d'un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de la prunelle ou la peau de mon coeur...

Et je crois content-pas trop!-mais il faut vivre:
Pour promener un peu sa faim, le gueux s'enivre...

Un beau jour-quel métier!-je faisais, comme ça,
Ma croisière.-Métier!...-Enfin,Elle passa
-Elle qui?-La Passante!Elle, avec son ombrelle!
Vrai valet de bourreau, je la frôlai...-mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,
Et...me tendit sa main, et...m'a donné deux sous.




AVENTURA GALANTE E FORTUNA

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz- um pouco- é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida...

Um belo dia- triste ofício! -eu assim,-
Ofício!...- velejava. Ela passou por mim.
-Ela quem? -A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco,toquei-a...-porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E...estendeu a mão,
e...me deu uns tostões.

(Trad.: Antônio Siscar)






PETIT COUCHER

(risette)


Le plaisir te fut dur, mais le mal est facile
Laisse-le venir à son jour.
A la Muse camarde on ne fait plus d'idylle;
On s'en va sans l'Ange — à son tour —

Ton drap connaît ta plaie, et ton mouchoir ta bile;
Chante, mais ne fais pas le four
D'aller sur le trottoir quêter dans ta sébile,
Un sou de dégoût ou d'amour.

Tu vas dormir : voici le somme qui délie;
La Mort patiente joue avec ton agonie,
Comme un chat maigre et la souris;

Sa patte de velours te pelotte et te lance.
Le paroxysme encor est une jouissance:
Tords ta bouche, écume... et souris.





INFANTE EM SEU LENÇOL

(risinho)


O prazer te foi duro, mais fácil é o mal
Deixa-o vir à luz do dia.
À musa funesta já não se faz madrigal;
Vais e o anjo fica — à revelia —

Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel;
Canta, mas deixa essa mania
De sair à rua estendendo teu chapéu,
Por vinténs de amor ou ironia.

Agora dorme: eis o sono que liberta;
Com tua agonia a Morte brinca esperta,
Como o gato magro e o rato;

Sorrateira, a pata te lança ou te deita.
E o velho paroxismo ainda te deleita:
Torce a boca, escuma... e seja grato.

(Trad.: Antônio Siscar)






PARADE
(oubliée)

Place S.V.P. Provinciaux
de Paris & Parisiens de
Carcassone!

Et toi, va mon livre_
Qu' une femme te corne,
Qu' un fesse-cahier te
fesse, qu' un malade
te sourie!

Reste pire _
tes moyens te le permettent.
Dis à ceux
du métier que tu es un
monstre d' artiste...
Pour les autres, 7 f 50.

Va mon livre & ne
me reviens plus.




PARADA

(esquecida)

Praça S.V.P. Provincianos
de Paris & parisienses
de Carcassone!

Vá, meu livro, vá _
Que uma mulher te chifre,
Que um medalhão te esnobe,
Que uma doença te sorria!

Você tá numa fria
com fome e sem tostão.
Diz a eles

da academia, que você é um
monstro de artista...
Para os outros, 7 f 50.

Vá, meu livro, vá
E não me volte aqui.

(Trad.: Claudio Daniel)



A editora Iluminuras publicou uma boa edição bilíngüe de Amores Amarelos, com tradução de Antônio Siscar. Faça um favor a você mesmo e comprem esse livro: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=314627&sid=20715920810818661568242939&k5=349EE7FA&uid=


Felipe Stefani.

3 comentários:

Xavier disse...

Fiquei curioso com o poeta que eu ainda não conhecia.

Bom ler.

Dani (ela) disse...

(não só) ao André...

primo, tem uma coisinha pra você(s) lá no Artista.

^^

Dani

Marcelo Novaes disse...

Oi, Felipe.


Os Simbolistas são a matriz de quem pensa a poesia como extensão da música. Belíssima sugestão.E o reconhecimento póstumo é aquela velhíssima história: o cara faz a obra pela obra,quando tem o que dizer e sabe como. Ou não faz nada, se depender dos aplausos da galera.Os "retardatários" de plantão, quanto ao reconhecimento.Difícil não ser excêntrico nessa solidão...


Abração,



Marcelo Novaes.