quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Composição.

O frêmito dos grãos, a palpitação da seiva,
amanhecem, em mim, as montanhas, o dorso
dos animais silenciosos, as tardes todas do meu
passado. Repentinamente, as árvores do verão,
verde além do tempo, além do espaço, germinam
o que eu fui, o que ficou apagado pela escritura
dos desertos, pela constante passagem das chuvas.
Nos escombros de mim, brinca um menino de pólen,
arco-íris a reluzir, no esquecimento, as cores todas
do mundo. Nas paisagens onde o silêncio se adensa,
feito rocha indevassável, somente o verde se faz
música, se multiplica em pão e alegria.
O frêmito da seiva, a palpitação dos grãos, inauguram,
em mim, uma palavra em constante manhã.


***
Pintura: Árvore em Terreno Baldio; Marcelo Ariel.
Escultura: Sem Titulo; Megumi Yuasa, foto de Felipe Stefani.
Poema: Sem Titulo; Alexandre Bonafim.

2 comentários:

1q1q1q1q disse...

Deliciosamente lindo esses versos:
"Nos escombros de mim, brinca um menino de pólen,
arco-íris a reluzir, no esquecimento, as cores todas
do mundo."

Sofia disse...

Muito bom acordar e ler tão lindo poema cheio de palavras 'em constante manhã'.
Belíssimo texto. Parabéns!
bs,
Sofia