.
"La mer est ton miroir."
Baudelaire
João era homem do mar. Pouco a dizer. Enfrentava marés. Pescava. Morreu com tiro no peito, sobre os rochedos. Encontrado na ponta da praia. Pele fina, enrugada pelas águas. Nada foi dito. Ninguém lamentou. João era incógnito como o mar, quieto como o mar, impenetrável como seus segredos mais longínquos. Ninguém sabia quem era João. Ninguém sabe o que é o mar. Há inumeros joãos. Há muitos mares. Alguns, às vezes, se perguntam; João teria existido ? Tão calado, tão discreto, quase nulo. O mar nunca responde, apenas suspende as barcas. Ninguém sabe o nome oculto das águas. Ninguém sabe nada. Nos mercados fala-se muito. A vida continua. O mar não diz nada. A barca flutua.
***
Felipe Stefani, Santos 2011.
.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
.
A menina tem medo.
O mar invadirá as casas.
O céu engolirá o mundo.
A terra engolirá os homens
mortos de fome.
Do Sol vem a luz,
e o calor que esquenta seu corpo.
O mar bate em suas costas pequenas.
Por que o medo menina?
Brinca.
O cálculo é irmão da angustia
e tece esse poema.
Brinca apenas.
Deixa a agonia para mim.
***
Felipe Stefani. Santos, primavera 2011
A menina tem medo.
O mar invadirá as casas.
O céu engolirá o mundo.
A terra engolirá os homens
mortos de fome.
Do Sol vem a luz,
e o calor que esquenta seu corpo.
O mar bate em suas costas pequenas.
Por que o medo menina?
Brinca.
O cálculo é irmão da angustia
e tece esse poema.
Brinca apenas.
Deixa a agonia para mim.
***
Felipe Stefani. Santos, primavera 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Paisagem Marítima
Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular..."
T. S. Elliot
I
Os sudários do Sol eunuco
fertilizam as águas
das sombras profanadas
pela luz do imenso declínio.
O esplendido teatro interior
nos saltos transparentes da paisagem.
O grito agônico da treva
no instante do enigma,
cortado pelo canto infinito de uma gaivota.
No cais,
o baile emaranhado de redes e pescados
sacraliza a idade incongruente do esquecimento.
Mesmo que os Salmos da manhã
desvelem a dobra do inferno
nos cabelos das mulheres loucas.
Enquanto a areia movediça da visão
joga seus dardos
ao redor do arco das cotovias.
No vagar arcaico das crianças na areia,
no tombo algébrico e eterno dos peixes,
o mais perverso sacrilégio,
enraizado no vento,
torna-se música
tocada pelos dedos
de infindáveis labirintos.
Um entre-
ato de ressacas
no nascimento continuo do mundo.
Parte a caravela
rente ao sono profundo.
II
O mar tem o sexo lançado
contra o ar zodíaco dos marinheiros.
As cabeças,
nas línguas das marés,
batem nas metades
remendadas pela treva,
pelo anjo infecundo do sono.
O anzol faísca a esfinge solar
no seio do vento.
Os sepulcros do céu
pendem cegamente
sobre as ondas infindáveis,
suplicantes.
Só a morte escala,
com mãos ensurdecidas,
a criança inaugural,
o assombro maculado.
Mergulhado nessa treva inominável,
o espetáculo sufocante
da meditação marítima.
Diante da lua, diante do vício.
Até as águas se esgotarem em segredo,
na idade inimaginável do silêncio.
Felipe stefani, Santos inverno 2011
.
No reino crepuscular..."
T. S. Elliot
I
Os sudários do Sol eunuco
fertilizam as águas
das sombras profanadas
pela luz do imenso declínio.
O esplendido teatro interior
nos saltos transparentes da paisagem.
O grito agônico da treva
no instante do enigma,
cortado pelo canto infinito de uma gaivota.
No cais,
o baile emaranhado de redes e pescados
sacraliza a idade incongruente do esquecimento.
Mesmo que os Salmos da manhã
desvelem a dobra do inferno
nos cabelos das mulheres loucas.
Enquanto a areia movediça da visão
joga seus dardos
ao redor do arco das cotovias.
No vagar arcaico das crianças na areia,
no tombo algébrico e eterno dos peixes,
o mais perverso sacrilégio,
enraizado no vento,
torna-se música
tocada pelos dedos
de infindáveis labirintos.
Um entre-
ato de ressacas
no nascimento continuo do mundo.
Parte a caravela
rente ao sono profundo.
II
O mar tem o sexo lançado
contra o ar zodíaco dos marinheiros.
As cabeças,
nas línguas das marés,
batem nas metades
remendadas pela treva,
pelo anjo infecundo do sono.
O anzol faísca a esfinge solar
no seio do vento.
Os sepulcros do céu
pendem cegamente
sobre as ondas infindáveis,
suplicantes.
Só a morte escala,
com mãos ensurdecidas,
a criança inaugural,
o assombro maculado.
Mergulhado nessa treva inominável,
o espetáculo sufocante
da meditação marítima.
Diante da lua, diante do vício.
Até as águas se esgotarem em segredo,
na idade inimaginável do silêncio.
Felipe stefani, Santos inverno 2011
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domingo, 31 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Duas notícias:
O crítico literário Fernando Py escreve sobre meu livro “Verso Para Outro Sentido”, e sobre “Roseiral”, de José Inácio Vieira de Melo, no jornal Tribuna de Petrópolis. Nesse link: http://www.e-tribuna.com.br/2011/index.php?option=com_content&view=article&id=13895&catid=96
Entrevista comigo no site Mais Revista Cultura. Neste link: http://www.maisrevistacultura.com.br/artigos/ver/111/a-poesia-de-felipe-stefani
O crítico literário Fernando Py escreve sobre meu livro “Verso Para Outro Sentido”, e sobre “Roseiral”, de José Inácio Vieira de Melo, no jornal Tribuna de Petrópolis. Nesse link: http://www.e-tribuna.com.br/2011/index.php?option=com_content&view=article&id=13895&catid=96
Entrevista comigo no site Mais Revista Cultura. Neste link: http://www.maisrevistacultura.com.br/artigos/ver/111/a-poesia-de-felipe-stefani
sábado, 30 de abril de 2011
Outras Visões do Outono
I
A morte é forte
por que evoca sempre
a queda.
Como pedra
caindo sempre
contra o chão.
Mas não quebra.
Negar é vão.
No pacto final
seu ato ecoa: “vida”!
E a morte perde-se
belamente,
onde cega o estigma.
II
Um lunático domou meu corpo
na noite cheia de brumas.
Em todo lado a morte ria,
e ria alto de minha fúnebre escultura.
Tétricos contornos,
sombras ancestrais,
na arcaica angustia de ser findo,
ouvindo surtos irreais:
“Não há saída”.
O infinito fagulha
no silêncio invisível do nunca.
Mas não vemos o elo irrestrito,
sereno.
O lunático é a música
maculada dessas brumas...
III
Corcéis cegos
seguem na estiagem oculta
sem tempo.
São moinhos invioláveis
e nem se movem,
o ilusório é que atua
no ato estático,
insondável.
O ser liberto mergulha
no avesso do primeiro gesto,
no princípio do verbo
que não existe,
como nem essa canção existe.
IV
Três vezes te perdi
na discrepância
do esquecimento,
mas te vejo no vento
do estigma.
Sempre vem a voz
de um quase enigma.
Outra vez esse algoz
sedutor,
que em metade é morte,
metade amor.
E a terceira face
a noite do mundo encobre,
na guerra labiríntica das sombras,
anteriores à vida.
V
Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.
O inefável labirinto absoluto
está em tudo.
A essência é o enigma,
e a morte toca as margens
com dedos surdos.
Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.
.
***
Felipe Stefani, Santos, outono 2011.
.
I
A morte é forte
por que evoca sempre
a queda.
Como pedra
caindo sempre
contra o chão.
Mas não quebra.
Negar é vão.
No pacto final
seu ato ecoa: “vida”!
E a morte perde-se
belamente,
onde cega o estigma.
II
Um lunático domou meu corpo
na noite cheia de brumas.
Em todo lado a morte ria,
e ria alto de minha fúnebre escultura.
Tétricos contornos,
sombras ancestrais,
na arcaica angustia de ser findo,
ouvindo surtos irreais:
“Não há saída”.
O infinito fagulha
no silêncio invisível do nunca.
Mas não vemos o elo irrestrito,
sereno.
O lunático é a música
maculada dessas brumas...
III
Corcéis cegos
seguem na estiagem oculta
sem tempo.
São moinhos invioláveis
e nem se movem,
o ilusório é que atua
no ato estático,
insondável.
O ser liberto mergulha
no avesso do primeiro gesto,
no princípio do verbo
que não existe,
como nem essa canção existe.
IV
Três vezes te perdi
na discrepância
do esquecimento,
mas te vejo no vento
do estigma.
Sempre vem a voz
de um quase enigma.
Outra vez esse algoz
sedutor,
que em metade é morte,
metade amor.
E a terceira face
a noite do mundo encobre,
na guerra labiríntica das sombras,
anteriores à vida.
V
Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.
O inefável labirinto absoluto
está em tudo.
A essência é o enigma,
e a morte toca as margens
com dedos surdos.
Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.
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***
Felipe Stefani, Santos, outono 2011.
.
terça-feira, 29 de março de 2011
Duas Visões do Outono.
Vi um estranho
atravessar a rua,
seu vulto seco
escurecia o mar.
Seus braços não moviam,
era o mundo de sombras,
o pendulo que sorvia
o lastro da agonia.
Tarde de chumbo,
as ondas
retraem
o tempo.
Estrangeiro,
como essa flor,
por ser perpétua,
presa ao perene.
Cada passo
é morrer
contra o céu.
A Deus,
o estranho sou eu.

a
senda
rasgada
navalha
palmas
cortadas
a
Deus
se
o
Sol
cega
seja
guia
entre
brumas
labirintos
mudez
véu
Vi um estranho
atravessar a rua,
seu vulto seco
escurecia o mar.
Seus braços não moviam,
era o mundo de sombras,
o pendulo que sorvia
o lastro da agonia.
Tarde de chumbo,
as ondas
retraem
o tempo.
Estrangeiro,
como essa flor,
por ser perpétua,
presa ao perene.
Cada passo
é morrer
contra o céu.
A Deus,
o estranho sou eu.

a
senda
rasgada
navalha
palmas
cortadas
a
Deus
se
o
Sol
cega
seja
guia
entre
brumas
labirintos
mudez
véu
sábado, 1 de janeiro de 2011
A Carlos Drummond de Andrade
Todo abismo está no ato,
sonhou o cantor do sono.
O mundo suporta teus ombros,
e eles não cabem nas mãos de um menino.
O breve é vasto,
diz o bailarino.
E não tenho dedos para tecer
dentro do corpo
os estigmas do vento,
a mudez das luas.
Vivemos da fome, da fuga,
do exílio.
O resto é a bruma
que resta do impossível.
***
Felipe Stefani, santos 2010
Todo abismo está no ato,
sonhou o cantor do sono.
O mundo suporta teus ombros,
e eles não cabem nas mãos de um menino.
O breve é vasto,
diz o bailarino.
E não tenho dedos para tecer
dentro do corpo
os estigmas do vento,
a mudez das luas.
Vivemos da fome, da fuga,
do exílio.
O resto é a bruma
que resta do impossível.
***
Felipe Stefani, santos 2010
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