Sábado, 18 de Julho de 2009
A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?
Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.
O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.
Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?
Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristão. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.
Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?
Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.
Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.
Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.
Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
Links
Também na Germina, uma página com poemas de desenhos meus: http://www.germinaliteratura.com.br/2009/felipe_stefani.htm
Confiram também a bela revista Diversos Afins, edição de aniversário, com um poema meu: http://diversos-afins.blogspot.com/
Felipe Stefani
Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Cortejo do Crepúsculo

I
Sou como os velhos peregrinos de Bizâncio
na anunciação das vastidões precárias
no ritmo dos enganos do corpo
nas batalhas
quem caminha entre o hino
e o sonho do império
tem toda dimensão da vida de um era
e se ergue o olhar as labaredas do anoitecer
(leve ofuscamento angular da eternidade)
vê refletida nos altares dos palácios
a majestade
não da vida
ou da rima
contida na ressurreição dos príncipes
mas do silêncio dentro de um grito
que escapa
e nos corteja
na mão da tecelã que se envaidece com o crepúsculo
o inefável labirinto absoluto está em tudo
resta o tempo a desfazer o próprio tempo
no mundo.
II
ser da vida
.................................................................................como a vida
antes
........................................errante
***
Poema e Fotografia de Felipe stefani
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Canção

I
ao serem refletidas as vibrações
vê-se facilmente a alternância
as quatro estações a errância
das visões sucessivas
eis as conjunções da vida
do corpo do mundo e enfim a fábula
as pirâmides contemplam
o corpo ébrio do poeta
por isso água e fogo se completam
montanha e lago atuam convergindo
o caminho a tudo enlaça prosseguido
na harmonia continua das luas que despertam
as liras que incitam o fogo em propensão
retorna a dança ao equilíbrio infinito
instrumento lapidar dos ciclos mutação na fonte do mito
“deitai em vós meu jugo” e a extrema unção
cavalga o dragão do céu infindo
e além
quem corrompe o pensamento percorre todo a extensão da escrita deste arado pouco afeito a dança mas divino surgem loucas florações do caminho
compare a extensão dos sete mares com tudo o que há no mundo compare o Reino do Meio com a imensidão marítima semelhante a um grão no grande silo a criação tem dez mil fontes e o homem é uma delas aquilo que passaram os cinco imperadores e os Três Reinos aquilo que lamenta o homem honorário aquilo em que trabalha o homem prestativo tudo nada mais é do que isso se algo não tem forma os números não expressam a dimensão nos tempos antigos Yao abdicou em favor de Shun e Shun reinou como imperador K’uai abdicou em favor de Chieh e Chieh foi destruído T’ang e Wu lutaram e se tornaram reis o Duque Po lutou e foi eliminado olhando para isto desse modo vemos que lutar ou ceder comportar-se como Yao ou como Chieh pode ser nobre e elevado mesquinho e restrito impossível entender o caminho é sem princípio nem fim mas as coisas tem vida e morte as idéias e os números são da mesma natureza e elevam-se a dez em tudo um riu imerso na contensão do pensamento elaborava essa metáfora do meu corpo no mundo tudo e pouco contido na expiração do afeto busca entreabrir o ato do silêncio água e fogo na alternância do sentido desse reino de símbolos minha vasta espiral adormecida pulsa nos remotos enlaces onde o tempo sonhado abrange o tempo conhecido e dentro das palavras imenso caldeirão estou multiplicado antes sou tocado na bela comunhão do sábio como uma aurora explodindo mil unidades de ecos até as dez mil cítaras do afeto “em uma volta completa esmaguei a grande vacuidade” esse sopro do mestre corre cada labareda nas montanhas do meu abismo e sonho dentro da errância da vida com meu nome no meio em restrito candelabro de imitações os dias se espelham com o abraço da ternura elementar lhes rasgando como um prisma e tornando o que ama mais exato e infinito
pois ele amou precisamente
como haviam previsto
o mar
o tempo
comunhão
nos ciclos
da expressão
da morte
fugas de estações revisitadas sempre
e o renascimento
a palavra sem palavra do enlace absoluto
estou disperso em minha cama
elaboro vasto mundo e corpo ama
a volúpia da fala e a fala a escrita
isso é tudo
o resto é sonho e o sonho imita
o silêncio profundo
II
da emanação
extremas florações convergem
Foto e Poema de Felipe Stefani, Inverno 2009
Domingo, 12 de Julho de 2009
Rodrigo Souza Leão

Quero deixar aqui minha mais profunda e sincera homenagemn a Rodrigo Souza Leão, grande poeta, falecido semana passada aos 43 anos no Rio de Janeiro. Nunca a morte de alguém que tive tão pouco contato (contato no sentido temporal e corpóreo) me tocou tanto. Talvez pela generosidade que ele sempre demonstrou comigo, talvez por ele ter partido tão jovem, acho que os dois... Meu contato com ele foi assim, quando fui publicado na Zunai, não o conhecia, só ao Cláudio Daniel, e ele me escreveu do nada me dando os parabéns, já achei bem generoso. Nos falamos pouco desde então, mas a três semanas, quando lancei meu livro, mandei para ele a divulgação pedindo que ele me ajudasse, e ele enviou a todos seus amigos. São poucos os que fazem isso, garanto. Desejo toda paz, luz e força aos amigos e parentes, e garanto que ele está em algum lugar de harmonia e paz.
Um lindo poema dele:
MELHORA.
Tudo é uma criação da mente
Um poema ou um poente
Tudo tem um forte sentido
Quando não se oprime o indivíduo
Alguém soletra uma distância
A distância separa os fatos
A verdade não é tão necessária
Já que Heráclito já morreu
...
Sugiro que leiam mais poemas dele, leiam todos, e seu romance "Todos os Cachorros São Azuis" publicado pela 7Letras. Faço isso com um aperto no coração e uma culpa, pensando: "deveria ter feito isso muito antes". Mas tudo tem um ensinamento, daqui para frente, vou começar a publicar aqui os que admiro. O que aliais foi a proposta inicial desse blog.
O blog que Rodrigo mantinha: http://lowcura.blogspot.com/
Felipe Stefani
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Um exemplar custa seis reais.
Felipe Stefani
Terça-feira, 7 de Julho de 2009
Fragmentos

como uma estrada irreversível navegamos nosso próprio nascimento pois só é grande aquele que renasce
(tento forjar um enigma)
No fundo azul de um céu (ou mar) deves buscar tua poesia e digo que devemos ser imensos pois o sol nos lembra que o infindo é incomum ao tempo
(isto é a metáfora do símbolo)
a possível explicação de nossa sede de glória;
a voz de Cristo nos solstícios
o álamo seco floresce
e é preciso atravessar a água
do álamo seco surge um broto de raiz
a viga-mestra cede a ponto de cair
o firme e central suave e alegre
vaga e uma jovem se casa
com o velho andarilho e segue como um hino
sua dança sem nunca cessar
o imóvel caminho
(esta era a resposta da água)
de fato
o tempo é só a mutação
então o mestre forjou estas palavras
dizem que durante sua vida sua voz atingiu cinco mil e quarenta e oito mundos e a doutrina do vazio e a doutrina do pleno e há o ensinamento para a plenitude imediata e para o esvaziamento gradual
mas de acordo com a canção iluminada não há seres e corpos não há voz os sábios numerosos como as areias da praia são somente como bolhas de água no mar os sábios e os mestres são como relâmpagos
voltai-vos para o leste e olhareis a terra do ocidente fitai o sul e a estrela do norte lá estará e sempre
T’ai-t’o nada diz e nele confiam nada realiza e o amam plenamente estão íntegros os poderes embora a virtude não tome forma
e a paz da voz que excede todo entendimento guardará os vossos corações e os vossos sentimentos
naquele que ao beber da mulher de Samaria deu-lhe a água viva da impossível memória
disso um sobressalto rasgou-me as vísceras e como um riu desorbitado escrevia essas palavras como teias e as marcas que entreabria o grande arado que tingia o céu da escrita me fez contemporâneo das estrelas
Texto e desenho de Felipe Stefani
Mais desenhos do autor, aqui: www.pbase.com/sodesenho/felipe_stefani
Domingo, 5 de Julho de 2009
Poema em fuga no twitter.


Fiz um poema no twitter, ou melhor fiz e refiz com partes de poemas meus antigos, depois juntei e vi no que deu, isso:
Posso aventurar-me a perguntar às flautas do céu às flautas da terra o que nada significa disso a ave se encerra no céu e seu nome é vento
Ainda não emergido da minha fonte onde as oliveiras choram morrerei amanha nos espinhos nas quedas da paisagem do silêncio continuo
é preciso ter os pés atonitos para se lançar contra o declinio
é isso o amor uma visão esplêndida no dentro e no fora da elegante demência que naufraga
sei que toca as partes vivas e a morte do enlace onde nasce a música e as estaçòes nos moldam a chama e a simetria
até a luz além da luz da vida
é preciso ter os pés atonitos para se lançar contra o declinio
O tempo é ilusão
sinto calma quando os braços tingem surpreendidos a súbita infinitude e paira sobre os ossos o intacto rascunho da chuva anterior e sempre
e assim damos o nome
ou então o caminho?
não a caminho no meio do nome (o mestre disse)
posso aventurar-me a perguntar as flautas da terra as flautas do céu o que nada siguinifica disso
o grande labrego explode no ar e seu nome é vento
antes
fogo
delírio das paisagens de um grito extremo
para dizer
mundo
de entender do abismo o acorde mais profundo
Poema e desenhos de Felipe Stefani.