Outras Visões do Outono
I
A morte é forte
por que evoca sempre
a queda.
Como pedra
caindo sempre
contra o chão.
Mas não quebra.
Negar é vão.
No pacto final
seu ato ecoa: “vida”!
E a morte perde-se
belamente,
onde cega o estigma.
II
Um lunático domou meu corpo
na noite cheia de brumas.
Em todo lado a morte ria,
e ria alto de minha fúnebre escultura.
Tétricos contornos,
sombras ancestrais,
na arcaica angustia de ser findo,
ouvindo surtos irreais:
“Não há saída”.
O infinito fagulha
no silêncio invisível do nunca.
Mas não vemos o elo irrestrito,
sereno.
O lunático é a música
maculada dessas brumas...
III
Corcéis cegos
seguem na estiagem oculta
sem tempo.
São moinhos invioláveis
e nem se movem,
o ilusório é que atua
no ato estático,
insondável.
O ser liberto mergulha
no avesso do primeiro gesto,
no princípio do verbo
que não existe,
como nem essa canção existe.
IV
Três vezes te perdi
na discrepância
do esquecimento,
mas te vejo no vento
do estigma.
Sempre vem a voz
de um quase enigma.
Outra vez esse algoz
sedutor,
que em metade é morte,
metade amor.
E a terceira face
a noite do mundo encobre,
na guerra labiríntica das sombras,
anteriores à vida.
V
Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.
O inefável labirinto absoluto
está em tudo.
A essência é o enigma,
e a morte toca as margens
com dedos surdos.
Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.
.
***
Felipe Stefani, Santos, outono 2011.
.
sábado, 30 de abril de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Duas Visões do Outono.
Vi um estranho
atravessar a rua,
seu vulto seco
escurecia o mar.
Seus braços não moviam,
era o mundo de sombras,
o pendulo que sorvia
o lastro da agonia.
Tarde de chumbo,
as ondas
retraem
o tempo.
Estrangeiro,
como essa flor,
por ser perpétua,
presa ao perene.
Cada passo
é morrer
contra o céu.
A Deus,
o estranho sou eu.

a
senda
rasgada
navalha
palmas
cortadas
a
Deus
se
o
Sol
cega
seja
guia
entre
brumas
labirintos
mudez
véu
Vi um estranho
atravessar a rua,
seu vulto seco
escurecia o mar.
Seus braços não moviam,
era o mundo de sombras,
o pendulo que sorvia
o lastro da agonia.
Tarde de chumbo,
as ondas
retraem
o tempo.
Estrangeiro,
como essa flor,
por ser perpétua,
presa ao perene.
Cada passo
é morrer
contra o céu.
A Deus,
o estranho sou eu.

a
senda
rasgada
navalha
palmas
cortadas
a
Deus
se
o
Sol
cega
seja
guia
entre
brumas
labirintos
mudez
véu
sábado, 1 de janeiro de 2011
A Carlos Drummond de Andrade
Todo abismo está no ato,
sonhou o cantor do sono.
O mundo suporta teus ombros,
e eles não cabem nas mãos de um menino.
O breve é vasto,
diz o bailarino.
E não tenho dedos para tecer
dentro do corpo
os estigmas do vento,
a mudez das luas.
Vivemos da fome, da fuga,
do exílio.
O resto é a bruma
que resta do impossível.
***
Felipe Stefani, santos 2010
Todo abismo está no ato,
sonhou o cantor do sono.
O mundo suporta teus ombros,
e eles não cabem nas mãos de um menino.
O breve é vasto,
diz o bailarino.
E não tenho dedos para tecer
dentro do corpo
os estigmas do vento,
a mudez das luas.
Vivemos da fome, da fuga,
do exílio.
O resto é a bruma
que resta do impossível.
***
Felipe Stefani, santos 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
I
O silêncio invade
as rotas da indagação.
Existo?
E as flautas do mar recobram o olvido.
II
E eu que amava o sonho dos pássaros,
dizia as vozes imprevisíveis
que dormiam no mar:
"Como posso sonhar,
se a exatidão em que navegam as aves
é maior que a própria vida?"
E as sombras do silêncio repetiam:
"É preciso cantar para invadir o segredo".
***
Felipe Stefani, Manly Beach, Austrália 2010.
.
O silêncio invade
as rotas da indagação.
Existo?
E as flautas do mar recobram o olvido.
II
E eu que amava o sonho dos pássaros,
dizia as vozes imprevisíveis
que dormiam no mar:
"Como posso sonhar,
se a exatidão em que navegam as aves
é maior que a própria vida?"
E as sombras do silêncio repetiam:
"É preciso cantar para invadir o segredo".
***
Felipe Stefani, Manly Beach, Austrália 2010.
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domingo, 12 de dezembro de 2010
MANHÃ NA PRAÇA
Vejo as crianças na praça,
invisíveis.
Constroem sem dedos
leves canais de força.
Dentro de Deus as crianças
lavram seus cometas
e correm.
Que som intacto
na bucólica discrepância dos dias?
Que extrema melodia
passa ao largo da vida?
Mulheres sonham o ar
cheio de grutas,
sobem nas crateras da manhã
varadas por espelhos.
Em volta delas
penso uma massa de demência,
hipnotizo a cegueira.
As árvores estáticas
humanizam o tempo,
esquecem de Deus
em seus cometas invisíveis.
Alguns jogam xadrez
nas crateras violentas do silêncio,
contra os espelhos da demência.
Esquecem a vida.
Que som intacto passa ao largo?
Que extrema melodia?
***
Felipe Stefani, Santos 2010.
Vejo as crianças na praça,
invisíveis.
Constroem sem dedos
leves canais de força.
Dentro de Deus as crianças
lavram seus cometas
e correm.
Que som intacto
na bucólica discrepância dos dias?
Que extrema melodia
passa ao largo da vida?
Mulheres sonham o ar
cheio de grutas,
sobem nas crateras da manhã
varadas por espelhos.
Em volta delas
penso uma massa de demência,
hipnotizo a cegueira.
As árvores estáticas
humanizam o tempo,
esquecem de Deus
em seus cometas invisíveis.
Alguns jogam xadrez
nas crateras violentas do silêncio,
contra os espelhos da demência.
Esquecem a vida.
Que som intacto passa ao largo?
Que extrema melodia?
***
Felipe Stefani, Santos 2010.
domingo, 5 de dezembro de 2010
I
Imagino através das cítaras.
Ouço pelo esquecimento.
Levanto.
Respiro.
Sei que o mundo é imenso.
II
Como são abruptos
os sinos mudos do outono.
Violento,
o rasgo anterior
de um grito inaudível.
Tudo é sono.
Pois tudo tende,
de uma forma secreta,
contra as lacunas abismais do esquecimento.
***
Felipe stefani, Santos 2010.
Imagino através das cítaras.
Ouço pelo esquecimento.
Levanto.
Respiro.
Sei que o mundo é imenso.
II
Como são abruptos
os sinos mudos do outono.
Violento,
o rasgo anterior
de um grito inaudível.
Tudo é sono.
Pois tudo tende,
de uma forma secreta,
contra as lacunas abismais do esquecimento.
***
Felipe stefani, Santos 2010.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
NOTURNO
Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente as faces do mundo.
A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.
As barcas sonham a distância das flautas.
Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.
A inocência do mar submerge as cítaras.
***
Felipe Stefani, escrito da janela do apartamento. Santos, novembro 2010.
Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente as faces do mundo.
A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.
As barcas sonham a distância das flautas.
Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.
A inocência do mar submerge as cítaras.
***
Felipe Stefani, escrito da janela do apartamento. Santos, novembro 2010.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A CASA
A mesa, o sonho, a voz.
O transbordar das ruas em minha vida fechada,
ou tudo o que desliza no ventre da idéia,
ou meu tempo de muros cercando árvores secretas.
No outono é onde os teus olhos correm
pelo espaço dançarino do nosso pensamento,
pois pesam juntos os corpos que queimam as casas,
e o pão sobre a mesa.
Mesmo que os centauros da aurora
levantem em nossa guerra
o pecado anterior ao pecado original.
E então oh, minhas aves ébrias
que respiram a benevolência de tuas mãos.
Morrerei de uma tristeza indizível,
pois a carne de tua boca terna no ouro vivo dos meus lábios breves.
Ou morrerei pela inocência.
Repito: vida.
***
Felipe Stefani, primavera 2010.
A mesa, o sonho, a voz.
O transbordar das ruas em minha vida fechada,
ou tudo o que desliza no ventre da idéia,
ou meu tempo de muros cercando árvores secretas.
No outono é onde os teus olhos correm
pelo espaço dançarino do nosso pensamento,
pois pesam juntos os corpos que queimam as casas,
e o pão sobre a mesa.
Mesmo que os centauros da aurora
levantem em nossa guerra
o pecado anterior ao pecado original.
E então oh, minhas aves ébrias
que respiram a benevolência de tuas mãos.
Morrerei de uma tristeza indizível,
pois a carne de tua boca terna no ouro vivo dos meus lábios breves.
Ou morrerei pela inocência.
Repito: vida.
***
Felipe Stefani, primavera 2010.
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