sábado, 30 de abril de 2011

Outras Visões do Outono



I


A morte é forte
por que evoca sempre
a queda.

Como pedra
caindo sempre
contra o chão.

Mas não quebra.
Negar é vão.
No pacto final
seu ato ecoa: “vida”!

E a morte perde-se
belamente,
onde cega o estigma.




II


Um lunático domou meu corpo
na noite cheia de brumas.
Em todo lado a morte ria,
e ria alto de minha fúnebre escultura.

Tétricos contornos,
sombras ancestrais,
na arcaica angustia de ser findo,
ouvindo surtos irreais:
“Não há saída”.

O infinito fagulha
no silêncio invisível do nunca.
Mas não vemos o elo irrestrito,
sereno.

O lunático é a música
maculada dessas brumas...




III



Corcéis cegos
seguem na estiagem oculta
sem tempo.

São moinhos invioláveis
e nem se movem,
o ilusório é que atua
no ato estático,
insondável.

O ser liberto mergulha
no avesso do primeiro gesto,
no princípio do verbo

que não existe,

como nem essa canção existe.



IV



Três vezes te perdi
na discrepância
do esquecimento,

mas te vejo no vento
do estigma.

Sempre vem a voz
de um quase enigma.

Outra vez esse algoz
sedutor,
que em metade é morte,
metade amor.

E a terceira face
a noite do mundo encobre,
na guerra labiríntica das sombras,
anteriores à vida.



V



Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.

O inefável labirinto absoluto
está em tudo.

A essência é o enigma,

e a morte toca as margens
com dedos surdos.

Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.





.
***

Felipe Stefani, Santos, outono 2011.


.

7 comentários:

Leila Andrade disse...

Muito bom, Felipe.
A estação muda nosso espírito, invariavelmente,e o outono já deixou sua marca.
Tudo caminhando por aqui.
Beijo.

Antonio Nahud Júnior disse...

Olhar é "desvendar" o objecto do desejo de quem olha...

Belíssimo teu olhar poético.

O Falcão Maltês

Antonio Nahud Júnior disse...

Bacana conhecer o seu trabalho.
Gostei. São poemas densos e encantadores.

O Falcão Maltês

Fabrício Brandão disse...

Felipe, sua nova lavra poética atrai pela concatenação dos versos, densidade que sabe a rumos existencialistas.

Prazer estar aqui!

Abração!

romério rômulo disse...

gostei, felipe.
volto.
um abraço.
romério

Fred Caju disse...

Felipe, muito bom conhecer o seu trabalho. Gostaria que me esclarecesse algo: os poemas que estão em seu blog estão em seu livro?

Abraços! Acompanharei suas atualizações sempre que puder.

www.meiotom.art.br disse...

E vamos em frente...