segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crônicas do Poema Continuo.I

I - Rua Augusta




Descer a Augusta era como ir adiante, cada vez mais profundo, nos círculos do delírio e do êxtase. Através da embriaguez, cada vez mais intensos , íamos dos cinemas, galerias e bares, empanturrados de jovens discursos falsamente intelectuais, aos pequenos inferninhos, ao neon, policia e prostituição. Era sempre o mesmo, a embriaguez, o horror, a angustia, e a liberdade. Os jovens aglomerados na rua, no chão, nas paredes, tocavam vilão, sorriam, fingiam. A cores importadas dos anos 80 cintilavam, assim como o neon. Gays aos beijos e a sempre falsa liberdade. Que tormento! Posso senti-lo até hoje em meu estômago diante daquela sensação de liberdade, que não me dava nada.

Quando rumava para Ubatuba, com as luzes da pequena cidade sufocadas pelas montanhas, minha alma sangrava na noturna e densa vegetação costeira. Estava vivo, por isso o desespero. Nas noites geladas da Augusta, não havia saída, estava pronto para morrer, ninguém me acolhia, e nem poderia, estava incomunicável para o afeto, a vastidão era uma ruína.

Então principiava a dança, o desespero alcança a ebriedade em fuga, mas a dispersão não muda, o vazio da liberdade. Buscava a iluminação dançando como um louco naqueles becos escuros? Nunca! Era um vôo sem razão, sem pouso, impuro.Mas ha, súbito libertava-me, era o auge da alucinação, dançava por todos os lados, por toda boate, era a própria música, despedaçada.


noite
constelações escassas
nas raízes de carnívoras povoações taciturnas
buracos ligados por dedos fulgurantes
contra as grutas do poder do sono lírico
os panos todos selvagens planos contorcidos
e não sentes o ar culminando à janela luminosa da loucura
a pulsar tua península crivando mortes e visões

o medo enfim
talvez a dança


Os amigos de nada serviam, eram doentes, sorviam a própria fuga, dementes. Nunca seriam amigos de nada, nem de ninguém, naquela errancia naufragada. Era à noite corroendo bestamente seus domínios. Noite fremente, a angustia concedendo delírios.

Era a morte que você buscava, minha amiga? Pálida amiga, queria arrastar-me junto em sua intriga. Te surpreendia, carregava ainda uma cruz no peito, um Cristo em declínio, uma promessa de renascimento.

Mas haviam as noites nostálgicas que bebíamos em homenagem a lua, emfim novos amigos se juntavam, bebíamos e celebrávamos a vida. Bebiamos e dançávamos, extremos, buscávamos uma redenção, uma coragem ao menos, para que a poesia fosse também corajosa. Finalmente, emfim, a poesia sem medo e sem retoques, a poesia do corpo.

Quantas e quantas vezes desci a Augusta, rumei para o fim da noite, vi o Sol do outro dia, dancei em busca da liberdade, nos inferninhos, enlacei-me, perdi-me, achei-me. As memórias estão na coragem, que tive.    


a noite incendiou-se
nos póros súbitos da epifania

corpo de raízes
num itinerário de assombros
corcel cego
onde cio derrama-se no âmago sem margem
refletida febre galga
a escultura do delírio

e no semblante da orgia
com destino forasteiro entre
flashes de neon exílio
correntezas
a volúpia da dança extenuante
guarda no estigma das marés
precipício inominado
urdido à finitude da inexistência

enfim
tombando entre raízes de paisagens naufragadas da noite
celebraremos outra vez os meteoros

e findos

nascemos




***
Felipe Stefani

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Declínio da Inteligência.


Henri Bergson


René Guénon


Henri Bergson(1859-1941) é um filosofo que há muito tempo me interessa, ultimamente tenho dedicado mais tempo à leitura da obra desse autor francês. Seu pensamento é profundamente instigante e original, porém havia algo de errado, a meu ver, em sua crítica a inteligência. Outro dia, relendo o primeiro capitulo do livro “Oriente e Ocidente” do também francês René Guénon(1886-1951), em um desses sincronismos inexplicáveis da vida, ele fazia justamente uma crítica a esta abordagem de Bergson, jogando luz nessa questão. Segundo Guénon, Bergson se voltou contra o Cartesianismo, no entanto, não conseguiu escapar totalmente ao pensamento de Descartes, justamente por se apegar, na sua concepção de inteligência, na maneira em que ela era entendida pelo filosofo e matemático, é a inteligência que deu origem ao iluminismo e ao cientificismo moderno, e não a autêntica inteligência tradicional e religiosa. Segundo Guénon, é uma inteligência que, após renegar a metafísica tradicional, ou seja, a visão de uma realidade superior e transcendente, ficou a mercê, na filosofia e na ciência, das concepções, sentimentos e desejos individuais, sempre arbitrários.
Desse equivoco de Bergson acredito que nasceu, entre muitos intelectuais contemporâneos, o desdém a tudo que seja racional, ou racionalmente claro. Confundem razão com racionalismo, ou seja, o uso tradicional e metafísico dessa, por seu uso exagerado e unilateral. A intuição que Bergson propõe, no entanto, contraditoriamente, nada mais é do que uma intuição ainda presa nos moldes do cartesianismo, como Génon explica no texto que selecionei abaixo.
Emfim, nesse processo esquecemos que a razão tinha um uso muito mais amplo e profundo nos antigos, e que o contraponto conhecimento-fé, nada mais é do que outro erro do pensamento moderno.

Seguem os trechos do primeiro capítulo do livro “Oriente e Ocidente” de René Guénon, onde ele explica tudo isso muito melhor, e mais detalhadamente do que eu:

“Vê-se, pois aqui reaparecer essa degradação da inteligência que acaba por identificá-la com o mais restrito e inferior de seus empregos: a ação sobre a matéria visando unicamente a utilidade pratica. 0 chamado "progresso intelectual" definitivamente não é senão o próprio "progresso material" e, se a inteligência fosse apenas isto, seria preciso aceitar a definição que lhe dá Bergson. A bem da verdade, a maioria dos Ocidentais atuais não concebe a inteligência de outro modo. Para eles, reduz-se, nem mesmo à razão, no sentido cartesiano, senão à mais ínfima parte dessa razão, a suas mais elementares operações, àquilo que está sempre estreitamente ligado ao mundo sensível, do qual fizeram seu único e exclusivo campo de atividade. Para aqueles que sabem que existe algo mais e que persistem em dar às palavras seu verdadeiro significado, não é de "progresso intelectual" que se pode tratar em nossa época, senão, ao contrário, de decadência, ou melhor dizendo, de declínio intelectual.”

“A concepção de "progresso moral", por sua vez, representa o outro elemento predominante da mentalidade moderna. Referimo-nos à sentimenta1idade. E a presença deste elemento de modo algum nos fará modificar o julgamento por nós formulado ao dizermos que a civilização ocidental é totalmente material. Bem sabemos que alguns querem opor o domínio do sentimento ao da matéria, tornando o desenvolvimento de um deles numa espécie de contrapeso a invasão do outro e tomar por ideal o equilíbrio mais estável que for possível entre esses dois elementos complementares. Talvez seja este, no fundo, o pensamento dos intuicionistas que, ao associarem indissoluvelmente inteligência e matéria, tentam uma saída com o auxílio de um instinto muito mal definido. Com mais certeza ainda, é este o pensamento dos pragmatistas, para quem a noção de utilidade, destinada a substituir a noção de verdade, apresenta-se ao mesmo tempo sob o aspecto material e sob o aspecto moral. Vemos ainda aqui até que ponto o pragmatismo exprime as tendências especiais do mundo moderno, especialmente do mundo anglo-saxão, que é sua fração mais típica. De fato , materialidade e sentimentalidade, longe de se oporem, não podem existir uma sem a outra, e ambas alcançam juntas seu desenvolvimento mais extremo. Disto, temos prova na América, onde, conforme tivemos oportunidade de assinalar em nossos estudos sobre o teosofismo e o espiritismo, as piores extravagâncias "pseudo-místicas" nascem e disseminam-se com incrível facilidade, ao mesmo tempo que o industrialismo e a paixão pelos "negócios" são levados a um grau que chega às raias da loucura. Neste estado de coisas, não é mais um equilíbrio que se estabelece entre as duas tendências. São dois desequilíbrios que se acrescentam e, ao invés de se compensarem, agravam-se mutuamente. A razão deste fenômeno é fácil de perceber: quando a intelectualidade reduz-se a um mínimo, é apenas natural que a sentimenta1idade tome a dianteira. Esta, alias, por sua própria natureza, está bem próxima à ordem material: não há nada em todo o domínio psicológico, que esteja mais estreitamente dependente do organismo e, apesar de Bergson, é o sentimento, e não a inteligência, que se nos apresenta como ligado à matéria. Bem sabemos a resposta que podem dar os intuicionistas: a inteligência, tal como a concebem, está ligada à matéria inorgânica (é sempre o mecanicismo cartesiano e seus derivados que eles tem em mente) e o sentimento à matéria viva, que lhes parece ocupar um lugar mais elevado na escala das existências. Inorgânica ou viva, porém, é sempre matéria, - e pertencente às coisas sensíveis. É decididamente impossível à mentalidade moderna e às filosofias que a representam superar esta limitação. A rigor, se sustentam que haja uma dualidade de tendências, será necessário relacionar uma delas à matéria e a outra à vida, distinção que de fato pode servir para classificar de maneira bem satisfatória as grandes superstições de nossa época. Entretanto, reafirmamos, são ambas pertencentes à mesma ordem e não se podem realmente dissociar; estão situadas em um mesmo plano, e não superpostas hierarquicamente. Assim, o "moralismo" de nossos contemporâneos é apenas o complemento necessário de seu materialismo prático. Seria perfeitamente ilusório querer exaltar um em detrimento do outro uma vez que, sendo necessariamente solidários, desenvolvem-se ambos simultaneamente e no mesmo sentido, que é aquele a que se convencionou chamar "civilização".”

René Guenon, “Oriente e Ocidente”


***
Felipe Stefani

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Galeria.


Rembrandt, Filósofo Meditando. 1631. Louvre, Paris, França.



Rembrandt, Hendrickje Stoffels. 1957


Duas de minhas pinturas favoritas, as duas de Rembrandt. Não tenho palavra para dizer o quanto me atraem e o que sinto e penso sobre elas, exatamente. Parece que toda historia da arte, passado, presente ao seu tempo e futuro esta contida nelas...

Felipe Stefani

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Belos Horizontes (Desenhos feitos em BH)

Amei da cidade o ar atemporal e, à luz da tarde, os passeios labirínticos. No crepúsculo os raios solares, angulares, e o som barroco das vozes, inconclusas talvez, mas serenas.

Amei o amor erótico, fachadas, pilares, curvas, e o cabelo curvo da menina distraída à mesa do bar.

Amei o amor da alma, a calma dos corpos, em meio aos jogos, os montes vermelhos de sol. A noite, estrelas.



















Desenhos e texto de Felipe Stefani.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A HOLDERLIN

Soa o sagrado em meu coração embriagado:
em teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
inteiro, ainda que meu canto não me alcance,
pois meu sonho é um barco e um violino
entre as margens dançarinas do tempo.

André Setti

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Qual o dom do cavalo luminoso?

As estrofes são musicais
ante os olhos imensos do tempo,
por vezes os transformam
em ruínas elaboradas
com o pó melancólico
dos edifícios lógicos,
por vezes singram,
sangram e cantam
em coro
os mais fundos delírios.

No mesmo ato,
platéia e palco
dançam a peça eterna,
em lucidez embriagada.

André Setti

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A vida, por vezes, há de nadar contra suas próprias barreiras, como uma dança.

André Setti

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cada dia há de ser uma aventura errante, entre águas, amor, palavras, vivências. Cada dia há de ser uma vida, para a vida ser maior do que o mundo.

André Setti

Isso não é literatura. É só uma coisa que pensei.