
Henri Bergson

René Guénon
Henri Bergson(1859-1941) é um filosofo que há muito tempo me interessa, ultimamente tenho dedicado mais tempo à leitura da obra desse autor francês. Seu pensamento é profundamente instigante e original, porém havia algo de errado, a meu ver, em sua crítica a inteligência. Outro dia, relendo o primeiro capitulo do livro “Oriente e Ocidente” do também francês René Guénon(1886-1951), em um desses sincronismos inexplicáveis da vida, ele fazia justamente uma crítica a esta abordagem de Bergson, jogando luz nessa questão. Segundo Guénon, Bergson se voltou contra o Cartesianismo, no entanto, não conseguiu escapar totalmente ao pensamento de Descartes, justamente por se apegar, na sua concepção de inteligência, na maneira em que ela era entendida pelo filosofo e matemático, é a inteligência que deu origem ao iluminismo e ao cientificismo moderno, e não a autêntica inteligência tradicional e religiosa. Segundo Guénon, é uma inteligência que, após renegar a metafísica tradicional, ou seja, a visão de uma realidade superior e transcendente, ficou a mercê, na filosofia e na ciência, das concepções, sentimentos e desejos individuais, sempre arbitrários.
Desse equivoco de Bergson acredito que nasceu, entre muitos intelectuais contemporâneos, o desdém a tudo que seja racional, ou racionalmente claro. Confundem razão com racionalismo, ou seja, o uso tradicional e metafísico dessa, por seu uso exagerado e unilateral. A intuição que Bergson propõe, no entanto, contraditoriamente, nada mais é do que uma intuição ainda presa nos moldes do cartesianismo, como Génon explica no texto que selecionei abaixo.
Emfim, nesse processo esquecemos que a razão tinha um uso muito mais amplo e profundo nos antigos, e que o contraponto conhecimento-fé, nada mais é do que outro erro do pensamento moderno.
Seguem os trechos do primeiro capítulo do livro “Oriente e Ocidente” de René Guénon, onde ele explica tudo isso muito melhor, e mais detalhadamente do que eu:
“Vê-se, pois aqui reaparecer essa degradação da inteligência que acaba por identificá-la com o mais restrito e inferior de seus empregos: a ação sobre a matéria visando unicamente a utilidade pratica. 0 chamado "progresso intelectual" definitivamente não é senão o próprio "progresso material" e, se a inteligência fosse apenas isto, seria preciso aceitar a definição que lhe dá Bergson. A bem da verdade, a maioria dos Ocidentais atuais não concebe a inteligência de outro modo. Para eles, reduz-se, nem mesmo à razão, no sentido cartesiano, senão à mais ínfima parte dessa razão, a suas mais elementares operações, àquilo que está sempre estreitamente ligado ao mundo sensível, do qual fizeram seu único e exclusivo campo de atividade. Para aqueles que sabem que existe algo mais e que persistem em dar às palavras seu verdadeiro significado, não é de "progresso intelectual" que se pode tratar em nossa época, senão, ao contrário, de decadência, ou melhor dizendo, de declínio intelectual.”
“A concepção de "progresso moral", por sua vez, representa o outro elemento predominante da mentalidade moderna. Referimo-nos à sentimenta1idade. E a presença deste elemento de modo algum nos fará modificar o julgamento por nós formulado ao dizermos que a civilização ocidental é totalmente material. Bem sabemos que alguns querem opor o domínio do sentimento ao da matéria, tornando o desenvolvimento de um deles numa espécie de contrapeso a invasão do outro e tomar por ideal o equilíbrio mais estável que for possível entre esses dois elementos complementares. Talvez seja este, no fundo, o pensamento dos intuicionistas que, ao associarem indissoluvelmente inteligência e matéria, tentam uma saída com o auxílio de um instinto muito mal definido. Com mais certeza ainda, é este o pensamento dos pragmatistas, para quem a noção de utilidade, destinada a substituir a noção de verdade, apresenta-se ao mesmo tempo sob o aspecto material e sob o aspecto moral. Vemos ainda aqui até que ponto o pragmatismo exprime as tendências especiais do mundo moderno, especialmente do mundo anglo-saxão, que é sua fração mais típica. De fato , materialidade e sentimentalidade, longe de se oporem, não podem existir uma sem a outra, e ambas alcançam juntas seu desenvolvimento mais extremo. Disto, temos prova na América, onde, conforme tivemos oportunidade de assinalar em nossos estudos sobre o teosofismo e o espiritismo, as piores extravagâncias "pseudo-místicas" nascem e disseminam-se com incrível facilidade, ao mesmo tempo que o industrialismo e a paixão pelos "negócios" são levados a um grau que chega às raias da loucura. Neste estado de coisas, não é mais um equilíbrio que se estabelece entre as duas tendências. São dois desequilíbrios que se acrescentam e, ao invés de se compensarem, agravam-se mutuamente. A razão deste fenômeno é fácil de perceber: quando a intelectualidade reduz-se a um mínimo, é apenas natural que a sentimenta1idade tome a dianteira. Esta, alias, por sua própria natureza, está bem próxima à ordem material: não há nada em todo o domínio psicológico, que esteja mais estreitamente dependente do organismo e, apesar de Bergson, é o sentimento, e não a inteligência, que se nos apresenta como ligado à matéria. Bem sabemos a resposta que podem dar os intuicionistas: a inteligência, tal como a concebem, está ligada à matéria inorgânica (é sempre o mecanicismo cartesiano e seus derivados que eles tem em mente) e o sentimento à matéria viva, que lhes parece ocupar um lugar mais elevado na escala das existências. Inorgânica ou viva, porém, é sempre matéria, - e pertencente às coisas sensíveis. É decididamente impossível à mentalidade moderna e às filosofias que a representam superar esta limitação. A rigor, se sustentam que haja uma dualidade de tendências, será necessário relacionar uma delas à matéria e a outra à vida, distinção que de fato pode servir para classificar de maneira bem satisfatória as grandes superstições de nossa época. Entretanto, reafirmamos, são ambas pertencentes à mesma ordem e não se podem realmente dissociar; estão situadas em um mesmo plano, e não superpostas hierarquicamente. Assim, o "moralismo" de nossos contemporâneos é apenas o complemento necessário de seu materialismo prático. Seria perfeitamente ilusório querer exaltar um em detrimento do outro uma vez que, sendo necessariamente solidários, desenvolvem-se ambos simultaneamente e no mesmo sentido, que é aquele a que se convencionou chamar "civilização".”
René Guenon, “Oriente e Ocidente”
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Felipe Stefani