quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Poemas de Felipe Stefani no Cronópios.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Colaborações: Escultura e Texto de Megumi Yuasa.
Felipe Stefani.
IMPROVÁVEL CONSTELAÇÃO
Eles estavam lá.
miríades, agressivos, irresistíveis,
impertinentes, obsessivos, espaçosos,
gigantescos, ensandecidos
mas sem desespero,
exibindo impudentes
sua ansiedade indefinida.
Indo ou vindo,
subindo e descendo pela árvore,
tronco, galhos, folhagens,
habituados com o ritmo, alucinante
nos labirintos do desejo.
Querem habitar alturas como pássaros?
se é isso logo se arrependem.
Ascendem, descendem
nada os satisfaz.
Não há pássaros que queiram pousar
na árvore com ferozes guardiões,
invasores do território conquistado.
Assim como
noite, desígnio, presságio, jogo,
edifícios, alvo, olhos, viagem,
incertezas, desvario, pedra, cidades,
memória, boca, nuvens, sono,
altura, ondas, mensagem, corda,
imagens, osso, cores, cabeça,
sede, criança, troco, mistérios,
rios, sonhos, loja, poesia,
cortinas, orvalho, ternura, paisagem,
luas, saudade, fogo, serpentes,
beira, trabalho, janelas, fim,
trilha, dor, cheiros, espelho,
água, abutres, cama, dedos,
vozes, sandália, letra, enigma,
metal, rua, sentido, ponte,
lenços, esquina, réstia, traça,
joelhos, sorte, angustia, portas,
luz, queda, mesas, vontade,
mito, ar, ritmo, montanhas,
bruma, tempo, estrelas, flor,
areia, máscara, palavra, chuva,
eles comungam com a árvore
na seara de inesperadas relações.
Num átimo reconhecem o contorno-limite
horizonte de seu novo habitat,
não toleram invasões.
Constelação passageira
que emerge e desaparece
sem nexo, ao acaso
em desequilíbrio e estranheza
como duvidas da memória,
gostaria de estar simples observador
em tempos imprevistos
ou mero participante do cenário
cabalmente aceito pelos deserdados.
Os ratos ignoram a perturbação
e apelam para o invisível
em busca de mudança e reequilíbrio
porque o que vêm não conforta,
confunde,
é uma desilusão.
Referências:
a) texto “Revelação”
b) escultura “Árvore de Ratos”
Megumi Yuasa, 2005 – 2006 e fevereiro de 2007
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Poemas e Desenhos de Felipe Stefani.

Eu vi o escasso tempo de malabarismos juvenis
A estalar a seiva acidentada da tarde,
A aurora pura entrelaçada ao meu próprio sono
Nos instantes precários de um segredo vago.
Na obliqua solidez dos corpos
Abre-se a rosa inicial sem nome, turva e casta,
Impura como a brisa imaculada dos sonhos, da voz,
Em uma espécie de chamado.
Eu vi o estrondo de uma gloriosa infância,
A alegria que em mim eram crianças cintilantes,
Na tarde volúvel, onde o mar, em silencio maior,
Faz dos corpos uma presença errante.
Devo amar calado o triunfo crepuscular da juventude,
Seus beijos ao mar e sua oferenda de mistérios,
Na rosa oblíqua de um chamado puro,
Na vastidão precária dos instantes.
Eu vi tudo isso e amei, sendo eu mesmo uma oferenda eclusa
Aos mistérios juvenis, que desafiam os segredos do mar.

Não te deites com a volúpia presa aos dentes,
se pretendes despertar os lobos.
Madrugada,
o uivo sonda seus ossos.
Alquimia não consiste em acalentar o orgulho.
Os lobos sabem farejar as sombras,
violetas e asteróides,
não envolvem seus mundos.
Sutileza,
presa acidentada dos cálculos,
a cidade tem uma cegueira acelerada,
os lobos avançam,
teu quarto tem extremidades impossíveis.
A volúpia brota de ossos cegos,
onde a vida, com seus lábios violetas,
não penetra.
Tu, cadáver de si mesma,
volúpia acidentada,
não penetre a alquimia com asteróides cegos.
Os lobos te envolvem, no lado mais sutil do orgulho.
Madrugada
tem acordes turvos.
Deitas-te a cama,
o edifício encravado na cidade
não supõe seus lobos extremos.
Com volúpia, não calcule a cegueira,
sem supor seus uivos.
Brotam nas sombras,
brotam nas ruas,
em espaços turvos,
no sorriso das cifras.
Avançam a madrugada em que te deitas
cadavérica,
farejam e ao farejar te despertam,
tão inesperada como um asteróide.
***
Mais poemas do autor nesses links: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=2443
http://www.revistazunai.com.br/poemas/felipe_stefani.htm
http://revistamalagueta.com/edanteriores/06/poemas/fs.html
http://www.meiotom.art.br/stefanipo.htm
Mais desenhos do autor nesse link: http://www.pbase.com/sodesenho/felipe_stefani
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
O PINTOR E AS MUSAS
Iniciamos os trabalhos de 2oo8 com um poema finalizado agora, há poucos minutos.
O PINTOR E AS MUSAS
Onde está o marinheiro?
Onde está Van Gogh?
Virgens declamam versos
E reclamam
Aos Deuses perversos
Do mundo.
O quadro onde Van Gogh
Enganou a loucura
Desperta as amantes,
Com harpas iluminadas.
Flechas sonoras atravessam as fêmeas,
Cantarolando.
É uma travessia brusca,
Espartana,
E o corpo lembra gestos antigos.
Há o poder dos ritos,
No quadro onde o mestre
Declamou a loucura,
Harpas iluminadas atravessam as fêmeas,
Cantarolando mundanas doçuras.
No entanto, rainhas devoram Van Gogh.
Onde está o marinheiro?
O quadro faz regressar o mistério.
Nele, o artista
Enganou o pudor e a loucura.
As musas vestem-se de luxuria,
Nada as fará regressar
Ao lento abismo
Dos corpos varados pelo mistério,
Retocam Van Gogh
Com pincéis alucinados,
As ninfas, donas dos homens,
Declamam perversas estrofes
Aos pintores do mundo.
Onde está o marinheiro, Van Gogh?
Mulheres atravessam o quadro e a loucura,
E o marinheiro não sonha decifrar.
André Setti
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
A pergunta persiste; O humano ou a arte?



Desenho: Felipe Stefani; Sem Titulo.Pinturas: Ticiano; Ecco Homo. - John Constable; Boat and Stormy Sky
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Colaborações: O escritor Flávio Viegas Amoreira e um texto sobre Santiago, filme de João Salles.
‘’Santiago’’ ‘sou eu, mas também é muita gente’.
João Salles, cineasta.
‘’ João Salles é nobre gênio da Alma, feito Ozu filmando Bachelard. Câmera, pincel ou pena : o mestre embaralha gêneros e suportes transfigurando a realidade crua naquilo denominamos Grande Arte. ‘’Santiago’’ é um épico da subjetividade: mais importante documentário brasileiro que tenha assistido; não sou hiperbólico: trata-se de um depoimento filmado que extrapola, excede o meramente registrado: a trajetória contada sem aparatos que não somente a memória e imagética duma existência profundamente sentida e pensada. O entusiasmo é reação ao reducionismo: ‘’Santiago’’ é tudo além daquilo que seria mera estória do mordomo de Walter Moreira Salles ou mimetização miniaturizada da relação ‘patrão’ e ‘criado’ : não é ato circense ou alvo pitoresco para sociólogos ou socialites, trata-se de perfeitamente inacabável experimento formal apartir dum personagem de conteúdo inenarrável. João Salles maturou 15 anos entre feitura e exibição da obra-prima: nesse interlúdio dirigiu contundente retrato da violência urbana (‘’Notícias de uma Guerra Particular’’), acompanhou modo revelador o vitorioso candidato Lula em 2002 (‘’Entreatos’ ) e levou às telas um reticente virtuose do piano (‘’Nelson Freire’’ ); sua marca é zona de sombra, os interstícios, as frestas da imagem, ritmo e sensibilidade: capta o que Walter Benjamin dizia ter-se perdido com a modernidade: o senso de ‘aura’. Santiago Badariotti Merlo é um protagonista de conto borgeano, ‘’Funes, o memorioso’’ discorrendo proustianamente sobre a História humana apartir do mundo detalhadamente encantado seja nos salões da Casa da Gávea ou no claustrofóbico cômodo-locação onde se desencadeia esse ‘making-off’ da existência. Sob a mirada instigante de João, Santiago discorre sobre absurdo da fugacidade, intermitências do coração, as epifanias como resistência ao frágil argumento de finalidade diante da perenitude do vazio ou do nada. Só a fenomenologia poética, a emulação sensorial é capaz de reter o saber que salva do esquecimento. Não há um feixo na revivência, no sonho, no enigma. A tela amplifica literariamente ‘’ santiagogramas’’: apontamentos sobre dinastias persas ou tribos dakotas, reflexões acerca de Dante, Lucrécia Borgia, dum cemitério genovês ou a corte dos Visconti; o monge nefelibata recita Lorca, dramatiza uma fala de Bergman, pontuando digressões gostosamente eruditas ao som de Bach e Beethoven que emolduravam sua Alma refletida em poética veemência, ademanes e Cultura como forma de sobrevivência ante crueza da impermanência: cultivo, não adorno. Intertextual e multicultural: passa das monarquias renascentistas às lendas de Hollywood, não dissocia tons ritualísticos: num flash louva madonas de Rafael noutro enternece com Fred Astaire dançando com Cyd Charise. Quando Santiago tenta expor o que seria mais íntimo, João percebe que toda essencialidade teria sido exposta estando sua ‘diferença’ contida na argúcia de sua intuição. Não resenho, transponho a percepção do impacto: a Grande Arte é essa simbiose entre motivo, expressão e participação do espectador num quadro ou espetáculo que se doa sem síntese: ‘’Santiago’’ ‘é’ João Salles, também sou eu e de qualquer atento, agudo interpretante. O comentário sobre um filme não é antecipá-lo : nem ‘só’ vendo ‘’Santiago’’ se estará identificando o plano metafísico em que se instala um homem rememorando, um diretor poetizando e a montagem tentando dar nexo ao que buscamos cotidianamente: resposta precária que seja ao que vivenciamos. Em época de elites em tropa, ‘enochatos’ e glamourização da burrice, ‘’Santiago’’ é um registro eterno da verdadeira aristocracia, a do espírito : que é de João e seus espelhos: o artista dá vida ao que nomeia quanto mais belo é o efeito ambíguo do que produz.’’
[Flávio Viegas Amoreira, escritor / crítico literário
Já lançou 5 livros pela 7 Letras, poeta, contista e romancista]
flavioamoreira@uol.com.br
A espiritualidade e a arte de percorrer as ondas.

Não é difícil ver o Surf como uma atividade espiritualizada, porem, como qualquer outra atividade que possa ser tomada como tal, pode ser entendida e também praticada, apenas na superficialidade.
Vários outros esportes e atividades artísticas, já foram utilizados, em diversas religiões, como um ponto de partida para um caminho de iluminação. O arco e flecha no Zen Budismo, por exemplo. Na antiga Índia, cada individuo, desempenhava um papel na sociedade, segundo sua aptidão, seja um artista ou um guerreiro, por exemplo, e então, desenvolvendo essa sua aptidão terrena, ele começava a percorrer um caminho de iluminação, depois de iluminado, através desse processo iniciatico, ele voltava a desenvolver seu papel segundo sua aptidão mais terrena, e assim se encaixava toda sociedade.
Por isso, acho que não é a atividade em si que pode garantir a espiritualidade, e sim, a forma como ela é encarada e vivida.
O Surf, que no Havaí, já foi uma atividade religiosa, é hoje apenas um esporte comum, mas pode ser muito mais que isso. Acho que é um esporte estético, e estética, na minha concepção, é espiritualidade.
Cada onda exige uma seqüência de movimentos diferentes, um trajeto diferente, e esse trajeto, tem de ser feito como movimentos harmoniosos, belos e fluidos (o estilo). Não é isso que é a arte, o maximo de eficiência, num espaço estético, não necessariamente predeterminado pelo artista? Beleza e eficiência.
Alem disso, esse esporte tem uma relação direta com a natureza, e mais que isso, com os movimentos cósmicos, é como se o surfista se diluísse nas ondas e ao mesmo tempo, ele as completa, com seus movimentos humanos e estéticos (beleza, arte).
Acho que isso, na mão de um grande sábio, poderia ser usado no processo de iniciação, como na Índia Antiga. Infelizmente, não sou um sábio e nem sei onde encontrá-los hoje em dia. Eles ainda existem?
Felipe Stefani